retaliador
Cansei de você. Foram as suas ultimas palavras. Ditas assim, sem nenhum remorso. Não nego que já era de se esperar, até porque não estávamos bem fazia muito tempo. Espantei-me por ela ter sido tão segura. Nem parecia mais aquela menininha frágil e delicada. Agiu como uma mulher madura que vivia pela razão e que a emoção nem sempre era o seu segundo plano. Não quis muita conversa, apenas pediu para eu arrumar as minhas coisas e sair daquela casa. Nesse momento pensei em pega-la pelo braço e dizer que isso era loucura. Não poderia ser assim, não podíamos nos acabar assim. Você dizia que eu era o amor da sua vida. Mas eu não fiz, não disse. Apenas arrumei as minhas coisas e ao chegar à porta a vi sentada na escada limpando as lágrimas de seu rosto. Caminhei dez passos até chegar ao meu carro. Pela primeira vez depois de tantas brigas ela não veio atrás de mim como das outras vezes. Ela não quis mais insistir, nem mesmo deixar que o tempo pudesse cuidar. Eu não pude fazer nada além de chorar. Chorei pelo que somos. Chorei pelo que fomos e pelo que deixamos de fazer. Chorei porque a dor de um coração partido nem se compara a dor de ver um amor morrer.
Restos de um naufrágio. (via retaliador)
poetario
Você consegue um bom emprego na hora que bem entender? Você descola um amor do dia para a noite? Se entrar num banco, sai de lá com um empréstimo sem burocracia? Se você respondeu sim para todas estas perguntas, parabéns. E fique atento para o horário de partida do seu disco voador, pois a qualquer momento você terá que voltar para o seu planeta. Entre nós, terrestres, o sim é uma resposta rara. Na maioria das vezes, não há vagas, não querem editar nossos poemas, não temos fiador, a garota não quer ouvir uns discos na sua casa, o garoto não quer usar camisinha e o guarda de trânsito não foi com sua cara e vai multá-lo, sim senhor. Não está fácil pra ninguém. Ao contrário do que possa parecer, esta não é uma visão pessimista da vida. As coisas são assim, dão certo e dão errado. Pessimismo é acreditar que ouvir um não seja uma barreira para realizar nossos planos. Tem gente que fica paralisado diante de um não. Nunca mais vai à luta. Já o otimista resmunga um pouco e em seguida respira fundo e segue em frente. Quando eu tinha 17 anos, mandei uns versos para um concurso de poesia. Não ganhei nem menção honrosa. Daí entreguei meus versos para o Mário Quintana avaliar. Ele não respondeu. Neste meio tempo eu estava apaixonada por um cara que ignorava a minha existência. Quando eu não estava pensando nele, fazia planos de morar sozinha, mas o meu estágio não era remunerado. Aí quis viajar para a Europa, mas não consegui entrar num programa de intercâmbio. Surpreendentemente, não passou pela cabeça a ideia de me atirar embaixo de um caminhão. Hoje tenho nove livros publicados, sou casada com o homem que amo, tenho a profissão dos sonhos e viajo uma vez por ano, e tudo isso sem ganhar na mega sena, sem cirurgia plástica, sem pistolão ou pacto com o demônio. O segredo: cada não que eu recebi na vida entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Não os colecionei. Não foram sobrevalorizados. Esperei, sem pressa, a hora do sim. O não é tão freqüente que chega a ser banal. O não é inútil, serve só para fragilizar nossa auto-estima. Já o sim é transformador. O sim muda a sua vida. Sim, aceito casar com você. Sim, você foi selecionado. Sim, vamos patrocinar sua peça. Quando não há o que detenha você, as coisas começam a acontecer, sim.
Martha Medeiros.   (via poetario)